
O Rei Zumbi. Um Herói da Liberdade.
Todo ano acontece o mesmo ritual na maioria das escolas brasileiras de ensino fundamental. Os professores passam em revista, com o auxílio dos livros didáticos e paradidáticos, devidamente avaliados e recomendados pelo Ministério da Educação e Cultura, os heróis oficiais e profissionais da América Latina, em atividade desde o Descobrimento.
Embora portadores de certas excentricidades – Vasco da Gama colecionava orelhas dos inimigos e o paulista Domingos Jorge Velho caçava índios mais por prazer do que por necessidade – essas celebridades não param de brilhar nas páginas dos nossos manuais escolares.
Mas, a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo resolveu fazer frente a esse império de heróis luciferinos. No início do presente ano, elaborou para os seus educadores uma bibliografia afrocêntrica, que traz, entre outros, livros sobre heróis étnicos e utópicos.
Nessa referência merece destaque o livro O Rei Zumbi. Um herói da liberdade, São Paulo, Editora Planetinha Paz, 1998, do produtor e ator Big Richard. E isso por três motivos. Primeiro, por se tratar de um gênero literário, tirante meia-dúzia de gatos pingados consagrados pelo mercado editorial, pouco valorizado no Brasil: a literatura infantil. Segundo, pela origem étnica do autor, que é negro. E, terceiro, pela temática: a mito-poética história de Zumbi.
Com ilustração de Gutto, que reproduz traços de pinturas primitivistas, Big Richard narra de forma épica e mítica – Conta a lenda..., assim começa a narrativa – a trajetória do Rei palmarino, desde a sua infância até a batalha final de Palmares contra as forças da sociedade escravista do açúcar.
Batalha final não. Inaugural, pois estréia na história do Brasil um novo tempo e um tipo novo de herói: o tempo de Zumbi como herói da liberdade.
JOSÉ APÓSTOLO NETTO
RICHARD, Big. O Rei Zumbi. Um herói da liberdade. São Paulo, Editora Planetinha Paz, 1998.